Incerteza política pode frear R$ 62 bi em vendas no trimestre eleitoral, impactando o comércio
A confiança do consumidor brasileiro em queda e os impactos no varejo pré-eleitoral
A confiança do consumidor brasileiro, medida pela Fundação Getulio Vargas (FGV), registrou sua quarta queda consecutiva, atingindo 84,7 pontos e acendendo um alerta para o varejo nacional em pleno ciclo pré-eleitoral. Historicamente, anos de eleição costumam impulsionar o comércio, mas o cenário para 2026 pode ser uma exceção preocupante, segundo análise do Ibevar-FIA (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo).
Contexto: Eleições e o comportamento do consumidor
Ao longo das últimas duas décadas, o varejo brasileiro se beneficiou do ambiente eleitoral, com estímulos como reajustes, ampliação do crédito e programas de incentivo. O impacto positivo, tradicionalmente, se concentra no trimestre da votação, quando o consumo de bens duráveis e financiados costuma crescer acima da média. Esse padrão se repetiu sob diferentes governos, mostrando que o efeito não depende do campo político, mas sim do ambiente econômico e da confiança do consumidor.
Entretanto, o estudo do Ibevar-FIA revela que esse ciclo virtuoso é interrompido quando o país chega às urnas dividido e sem clareza sobre o futuro político. Foi o que ocorreu em 2014 e 2022, anos em que o segundo turno foi decidido por margens inferiores a cinco pontos percentuais. Nesses momentos, o consumidor adota postura cautelosa: mantém gastos essenciais, mas adia decisões importantes, como trocar de carro, comprar eletrodomésticos ou investir em reformas.
Impacto financeiro: bilhões em vendas represadas
A análise do Ibevar-FIA, baseada em mais de 20 anos de dados do IBGE e do Banco Central, mostra que, em eleições acirradas, o varejo pode perder até R$ 62 bilhões em vendas no trimestre eleitoral. Esse valor representa quase seis vezes o faturamento do comércio eletrônico em datas como o Dia dos Pais. O freio no consumo se concentra nos bens duráveis, que dependem de confiança e horizonte de estabilidade para o consumidor assumir financiamentos de longo prazo.
O estudo destaca que o que trava o consumo não é o resultado da eleição, mas a incerteza sobre quem irá governar e qual política econômica será adotada. Essa paralisia afeta diretamente o desempenho do varejo ampliado, que movimenta cerca de R$ 4,3 trilhões por ano.
2026: incerteza em níveis recordes
O cenário para 2026 é ainda mais desafiador. O índice EPU-Brasil, que mede a incerteza de política econômica, já supera os patamares de 2014 e 2022, indicando um ambiente de expectativas deterioradas. O segmento de material de construção, por exemplo, já apresenta desempenho abaixo da média histórica, sinalizando que o impacto da incerteza está se antecipando ao calendário eleitoral.
Apesar de estímulos pontuais, como o crescimento expressivo nos emplacamentos de veículos em agosto, a confiança do consumidor segue em queda, especialmente nas expectativas para o futuro. Esse descompasso entre estímulo de mercado e pessimismo do consumidor pode limitar a recuperação do varejo após as eleições.
Projeção: recuperação mais lenta e riscos para datas-chave
Tradicionalmente, o varejo experimenta um rebote após o fim da incerteza eleitoral, com crescimento acima da média no trimestre seguinte à votação. No entanto, nas eleições marcadas por empate técnico, essa recuperação foi tímida, indicando que parte das vendas adiadas simplesmente não se concretiza. Em 2026, o risco é ainda maior, já que um eventual segundo turno pode coincidir com datas estratégicas como a Black Friday e o Natal, potencializando o impacto negativo da incerteza sobre o desempenho do comércio.
Para investidores e analistas que acompanham o setor varejista, monitorar indicadores de confiança e tendências de consumo é fundamental para antecipar movimentos do mercado. A Ranking de Ativos da AUVP Analítica oferece uma visão detalhada do desempenho das principais empresas do varejo, permitindo identificar oportunidades e riscos em meio à volatilidade eleitoral.